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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pobre Paulista, pobre Haddock

Raul Juste Lores

A prefeitura autorizou a construção de mais um shopping center na avenida Paulista, na esquina com a rua Pamplona. Na Haddock Lobo, onde ficava o Fasano, deve surgir, em pouco mais de um ano, o Cidade Jardim Shops, irmãozinho do bunker da marginal, o das torres neoclássicas.

Ainda há boatos que surja um centro comercial no antigo hospital Umberto Primo, perto do Masp, e outro na região da Oscar Freire. Se você fizer um mísero puxadinho, terá um trabalhão para obter um alvará. Mas parece não haver burocracia para erguer um novo shopping. Os caixotões que deixam a cidade ainda mais cinza não parecem preocupar as autoridades quanto a impactos no trânsito e na paisagem urbana.

Como diz o crítico Paul Goldberger, shoppings são aspiradores gigantes que retiram as pessoas das ruas. Quem ganha com ruas vazias? As grifes previsíveis nem são o maior problema. Desde Nefertiti, mulheres e cada vez mais homens gastam muito em joias e trajes caros que demonstrem status e sirvam para atrair os objetos do desejo.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Pelo direito à cidade

Roberto Guido

A fragmentação do espaço urbano paulistano, conforme temos insistentemente afirmado, é resultado direto da ação econômica e política dos agentes imobiliários para se apropriarem da renda da terra urbana. Capturado o Estado por parte desse setor social, todas as políticas públicas tornam-se estratégicas para que ocorra aquilo que os especuladores chamam de realização da valorização. Trata-se na verdade de transferência de renda social, expressa nos impostos e taxas que pagamos, para uma ínfima parcela de proprietários de imóveis e terrenos, intermediários, construtoras e imobiliárias.

Geógrafos e urbanistas já alertaram para esse fato que, além de concentrador de renda, determina também a organização do território urbano, inclusive no que diz respeito às vias de circulação, causando a crise de mobilidade que assistimos hoje em São Paulo.

Para amenizar tal dinâmica, o estatuto da cidade, lei 10257 de julho de 2001, estabeleceu um conjunto de instrumentos de política urbana, cujo objetivo estratégico é regular “o uso da propriedade urbana em prol do bem coletivo, da segurança e do bem estar dos cidadãos, bem como do equilíbrio ambiental”. Conforme a referida lei, tais instrumentos podem ser divididos em três grandes grupos: Planejamentos institucionais, mecanismos tributário-financeiros e instrumentos jurídico-políticos. Nesse contexto, planos diretores, operações urbanas consorciadas, leis de zoneamentos, certificados de potencial adicional de construção (CPAC’s), constituição de reservas fundiárias são, dentre outros, alguns exemplos de mecanismos para o combater à especulação imobiliária como indutor do crescimento das cidades.

domingo, 6 de novembro de 2011

Aquartelando territórios

Roberto Guido
Indicam as estatísticas da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo que somente no mês de abril tivemos na capital do estado 3475 furtos de veículos, 2971 roubos de veículos, 89 homicídios dolosos, 8831 roubos, entre outras modalidades de ocorrências. Manchete da Folha de São Paulo, no caderno cotidiano, de 21 de maio de 2011 informa que “Guardas da USP registram um roubo ou furto por dia”. A matéria dá conta de que, no mês de abril, houve na cidade universitária 18 casos de roubo, não havendo homicídios, tentativas de homicídio ou estupro. Cabe aqui uma pergunta fundamental: Por que os indicadores de violência na USP são infinitamente mais baixos do que no restante da cidade paulista, mesmo considerando-se os diferentes contingentes demográficos que habitam ou freqüentam tais localidades?

A fatalidade que acometeu um estudante da FEA nesta semana inflamou um debate que se quer reduzir à presença ou não da polícia militarizada dentro do campus universitário. Esta não é a questão fundamental. O que deveria ser objeto de debate é o próprio caráter do policiamento que se pretende: militarizado ou comunitário, repressivo ou preventivo.

Novamente assistimos a imprensa conservadora utilizar-se de um trágico episódio para vender seus jornais e defender a visão de setores sociais, que para manutenção de seus privilégios de classe necessitam de um aparelho repressivo brutal e, para os quais, qualquer outro modelo de segurança pública não seria, para seus objetivos, eficiente.

É nesse ponto que a discussão sobre policiamento na USP toma uma dimensão política e ideológica fundamental: trata-se de, na raiz do problema, discutirmos porque ainda precisamos militarizar nossa segurança, se é fato que vivemos numa plena democracia, ou se, por não ser tão plena assim, devemos aquartelar os espaços que habitamos.

   

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Abaixo da lei

VLADIMIR SAFATLE

"Ninguém está acima da lei." Com esta frase, o governador Geraldo Alckmin procurou justificar o fato de, mais uma vez, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP ser alvo de bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral lançadas pela Polícia Militar.

No entanto talvez fosse o caso de dizer que ninguém deveria ser tratado dessa forma pela lei. Um delito menor, como o porte de um cigarro de maconha, não justifica a presença de um batalhão da PM em ambiente escolar.

Trata-se de um delito que nem sequer é considerado como tal em vários países europeus e que vem sendo objeto de discussões sobre sua descriminalização por parte de pessoas insuspeitas de agirem em favor do tráfico internacional, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.


Eles sabem o que fazem

VLADIMIR SAFATLE

Um dos mantras preferidos daqueles que chegam aos 40 anos é: os jovens de hoje não têm grandes ideais, eles não sabem o que fazem.

Há algo cômico em comentários dessa natureza, pois os que tinham 18 anos no início dos anos 90 sabem muito bem como nossas maiores preocupações eram: encontrar uma boa rave em Maresias (SP), aprender a comer sushi e empregar-se em uma agência de publicidade. Ou seja, esses que falam dos jovens atuais foram, na maioria das vezes, jovens que não tiveram muito o que colocar na balança.

Por isso, devemos olhar com admiração o que jovens de todo o mundo fizeram em 2011.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O mundo se manifesta contra a crise e seus responsáveis

Publicado no Blog do Zé

Ao mesmo tempo em que a mídia e os organizadores das manifestações brasileiras convocadas via redes sociais preferiram restringir a motivação de seus atos, o mundo protesta de forma ampla, geral e irreestrita contra as medidas de austeridade draconianas adotadas pelos países em crise.

O mundo acertadamente protesta contra corte de salários, de benefícios previdenciários, de gastos sociais e contra aumento de impostos e juros. Tudo adotado para salvar bancos e governos que já se endividaram por socorrer a banca privada na crise das hipotecas e dos derivativos iniciada em 2008 nos Estados Unidos.